A Águia e o portão no carnaval de 2012
Pra que portão no samba
que vem do chão
que vem da alma
tanto portão cerca
a alma
pro povo não sair
na Águia de Ouro
na Portela
pra deixar de fora
a velha guarda
tanto portão
onde antes só tinha chão
tanta corda onde
antes era só olho
tanto bilhete no que
é de graça
pra que portão
para o que é só coração
samba e portão
aí, não combina não
Também de plumas
e paetês
se fazem prisões
só luxo na televisão
Em Rio dos Macacos
não precisa disfarçar
que ninguém tá vendo
serve o velho portão de porrada.
domingo, 19 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Limpando a casa
Tanta poeira
nos meus chinelos
sujeira nos cantos da casa
prego a manga da camisa
encontro farelo
nas gretas incontáveis da casa
Que impulso é esse
que me atarracha à casa?
coisa feita
compulsão ancestral
limpar uma casa
é andar em círculos
atrás da sujeira
que vai atrás da gente
pó nos cabelos
mãos gordurosas e ásperas
de lavar a borra do café
caso de amor esquisito com o tanque
amante medonho
obscuro
com seus olhos de limo
e um corpo compacto
é um safado
que devora meus quadris
coisas espalhadas
em cima das cadeiras
me dando ordens
e eu sem conseguir me defender
Eu numa peleja incrível
e elas contra mim
se divertindo
numa paz invejável
que eu não alcanço
nos meus chinelos
sujeira nos cantos da casa
prego a manga da camisa
encontro farelo
nas gretas incontáveis da casa
Que impulso é esse
que me atarracha à casa?
coisa feita
compulsão ancestral
limpar uma casa
é andar em círculos
atrás da sujeira
que vai atrás da gente
pó nos cabelos
mãos gordurosas e ásperas
de lavar a borra do café
caso de amor esquisito com o tanque
amante medonho
obscuro
com seus olhos de limo
e um corpo compacto
é um safadoque devora meus quadris
coisas espalhadas
em cima das cadeiras
me dando ordens
e eu sem conseguir me defender
Eu numa peleja incrível
e elas contra mim
se divertindo
numa paz invejável
que eu não alcanço
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Esperança
A estrela não luziu
no meu dia que finda
não sou Bandeira nem nada
mas a esperança me incomoda
como areia na garganta
vidro moído e rascante
mordo pão com mortadela
teu rosto é como um desgosto
ondulando no éter
holografia desinibida
ofendendo minha paixão descuidada
com insistência e desafeto
meu rosto não está desfeito em brumas
está concreto e avisado
que viagem de paixão
só tem bilhete de ida
e não dá prêmio de volta
teu rosto é silêncio e pronto
é ovo sem ter galinha
é o dito pelo não dito
o que quase nunca é dito
eu me assusto e solto um grito mudo
quero ver teu silêncio
correr para o meu grito mudo
se encontrarem atrás do meio-dia
nas frestas do ar
na coloração do olhar
nas pontas dos dedos
não quero obedecer aos apelos do medo
por isso acordo mais cedo
e faço um poema para cutucar
uma massa enorme de lembranças
e asso no forno
para fazer um pão
com gosto do teu rosto
no meu dia que finda
não sou Bandeira nem nadamas a esperança me incomoda
como areia na garganta
vidro moído e rascante
mordo pão com mortadela
teu rosto é como um desgosto
ondulando no éter
holografia desinibida
ofendendo minha paixão descuidada
com insistência e desafeto
meu rosto não está desfeito em brumas
está concreto e avisado
que viagem de paixão
só tem bilhete de ida
e não dá prêmio de volta
teu rosto é silêncio e pronto
é ovo sem ter galinha
é o dito pelo não dito
o que quase nunca é dito
eu me assusto e solto um grito mudo
quero ver teu silêncio
correr para o meu grito mudo
se encontrarem atrás do meio-dia
nas frestas do ar
na coloração do olhar
nas pontas dos dedos
não quero obedecer aos apelos do medo
por isso acordo mais cedo
e faço um poema para cutucar
uma massa enorme de lembranças
e asso no forno
para fazer um pão
com gosto do teu rosto
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Living history
Although our cultural environment has strong brands of miscigenation, does not give us full opportunity to get in touch with indigenous or african customs. It is known that these institutions are part of brazilian society, but we can not always see them developed into social practices respected and bloom. More easily they occupy the niche of rollick or unattached forms, and sometimes being the most loved, are cause for shame and made secretly at the back door, as the public entrance is reserved for something more socially prestigious.
We have a festive and colorful national day consecrated to our aborigenes, when the streets are full of children with their faces painted and plumes on their head. Although we are not familiar with dramas involving the demarcation of indigenous lands. The richness of our traditions drips in ficction, in school celebrations, civic celebrations. They are not totally forgotten, since still exists bonfire dances of june, pagodes,sambas,reisados,
Foto:Jonathan Hardeman
www.flickr.com/photos/jonhardeman/
www.myspace.com/jonhardeman
jongos( *1) . However they are garnering resources to survive and considered second class cultural events.
On May 13, 1888th Princess Isabel signed the Golden Law. According to the official history of Brasil this law "freed" the slaves. "Freed" is not the word, because "freedom" involves many issues were not even considered: where the "liberated" slaves would live? What occupations for them? what would them eat? Would they study or not? How? Where? None of these mesures was part of the " project of liberation". The slaves left the slave quarters and went to the favelas.
Even with all these reservations the date of May 13 was take as a suitable memorial meaning a change in the conditions of the slave's life. Is a civic date in Brasil. Umbanda ( religion which make cult of Orixás)(*2 ) took the date of May 13 to a ritual experience and reflection on slavery. About slavery itself and on all forms of ignorance and power we humans exert on each other here including the emotional tyranny on ourselves. In fact, this ritual is much broader. The problem of slavery raises a huge set of issues that deserve consideration: the respect for life, the experience of incarnate, love and hate, ravenge and forgiviness, various forms of exclusion. It is also a time to rescue our cultural memory. The presence of feijoada is justified because it was nothing less than basic and substantial meal of slaves in colonial Brasil. Usually feijoada is prepared to many people. We fill a large pot of black beans where are also is cooked the sausage, bacon, dried meat and others visceras. This food is not like that by random. Its way is so closely linked to how it begun. the best parts of slaughtered animals to eat, stayed in the big house"s kitchen.. To slaves were sent the pieces wich peoples from Big house didn't use eat. Here is a short and brief history of feijoada.
For this ritual, we prepare a lot of black beans to feed the community. The ritualistic attitude requires considerable degree of attention and intention. The goal is not only feed the body, but the whole being. Why the ritual is done calmly. Never swallow without thinking of anything else. The ritual begins by the way of setting the table ( in this case, the floor works as a table). We cover the floor with a long lace tablecoth in front of the gongá (altar). Over this towel we put the big pots of black bean, rice, cabbage, orange and the clutery. Some peoples sit along the mat and arrange the food on the plat and others distributes. Many peoples sit on small wooden benches ( mediuns chanelling spirits of desembodied slaves, according to our belief). After all we pray in thanksgiving and eat with hands to reaffirm the origin of the ritual.
The purpose of these rituals is recalling the story of our ancestors slaves and recover and heal our wounded and decharacterized identity. Some day of ritual I lived a unique moment of emotion, surprise and delight. If it is a beautiful and deep ritual, on this day was even more intense because Kaiapós ( aboriginal peoples from Brasil) participated. After the table was lowered they danced and sang around it. The dance was to thank God for the abundance, the opportunity to be together and life in general. We were about a hundred people. That atmosphere caused by faith, reverence, focus and intent was very rich. It was a very strong ritual, the excitement was intense, the presence of aborigenes and slaves disembodied brought back the feelings of the hearts that nothing can destroy. These were the sentiments of centuries and centuries present in Brasil' s history. A piece of our true history, no thesis, no theoretical views or intellectuals interpretations. Prevailed there only the feelings of who lived on his own experience the pains, the joys and achievements. The experience pure, wordless.
Insofar as the singing and dancing followed one after another and the Kaiapós beat the ground with their feet rhythmically, it seems like it was sprouting from the ground a living history ever told in a book by any historian. Only written by pain, emotion, experience of all those peoples and their past generations. It was the noise of feet setting a nice rhythm and the emotion rising and intensifying without stop until the atmosphere to be so full of live and emotion.
Then |I begun to think of our human mistakes. How many plunder! how many deaths! some groups violently attack some weaker with intent to steal the wealth, plunder, enslave. After decimating populations, villages and traditions the invader group boasts of his achievements. They think have destroyed the "primitives" and useless customs. and implemed once their belief, their culture, their world view. When least expected, any where, any time, the story of an ethnic group can break de ground with an unexpected force, unrestrained and very incisive, warning us not to fall into the folly of trying to destroy what is sublime and divine. That divine can temporaly hide into hurted hearts that learned to protect their more dear secrets. But being divine retains its freshness, strenght and wealth which prove that in fact, were not destroyed.
*1-bonfire dances of june, pagodes, sambas, reisados, jongos: popular rhythms of Brasil
*2-orixás:deities brought by africans slaves
We have a festive and colorful national day consecrated to our aborigenes, when the streets are full of children with their faces painted and plumes on their head. Although we are not familiar with dramas involving the demarcation of indigenous lands. The richness of our traditions drips in ficction, in school celebrations, civic celebrations. They are not totally forgotten, since still exists bonfire dances of june, pagodes,sambas,reisados,
Foto:Jonathan Hardeman
www.flickr.com/photos/jonhardeman/
www.myspace.com/jonhardeman
jongos( *1) . However they are garnering resources to survive and considered second class cultural events.
On May 13, 1888th Princess Isabel signed the Golden Law. According to the official history of Brasil this law "freed" the slaves. "Freed" is not the word, because "freedom" involves many issues were not even considered: where the "liberated" slaves would live? What occupations for them? what would them eat? Would they study or not? How? Where? None of these mesures was part of the " project of liberation". The slaves left the slave quarters and went to the favelas.
Even with all these reservations the date of May 13 was take as a suitable memorial meaning a change in the conditions of the slave's life. Is a civic date in Brasil. Umbanda ( religion which make cult of Orixás)(*2 ) took the date of May 13 to a ritual experience and reflection on slavery. About slavery itself and on all forms of ignorance and power we humans exert on each other here including the emotional tyranny on ourselves. In fact, this ritual is much broader. The problem of slavery raises a huge set of issues that deserve consideration: the respect for life, the experience of incarnate, love and hate, ravenge and forgiviness, various forms of exclusion. It is also a time to rescue our cultural memory. The presence of feijoada is justified because it was nothing less than basic and substantial meal of slaves in colonial Brasil. Usually feijoada is prepared to many people. We fill a large pot of black beans where are also is cooked the sausage, bacon, dried meat and others visceras. This food is not like that by random. Its way is so closely linked to how it begun. the best parts of slaughtered animals to eat, stayed in the big house"s kitchen.. To slaves were sent the pieces wich peoples from Big house didn't use eat. Here is a short and brief history of feijoada.
For this ritual, we prepare a lot of black beans to feed the community. The ritualistic attitude requires considerable degree of attention and intention. The goal is not only feed the body, but the whole being. Why the ritual is done calmly. Never swallow without thinking of anything else. The ritual begins by the way of setting the table ( in this case, the floor works as a table). We cover the floor with a long lace tablecoth in front of the gongá (altar). Over this towel we put the big pots of black bean, rice, cabbage, orange and the clutery. Some peoples sit along the mat and arrange the food on the plat and others distributes. Many peoples sit on small wooden benches ( mediuns chanelling spirits of desembodied slaves, according to our belief). After all we pray in thanksgiving and eat with hands to reaffirm the origin of the ritual.
The purpose of these rituals is recalling the story of our ancestors slaves and recover and heal our wounded and decharacterized identity. Some day of ritual I lived a unique moment of emotion, surprise and delight. If it is a beautiful and deep ritual, on this day was even more intense because Kaiapós ( aboriginal peoples from Brasil) participated. After the table was lowered they danced and sang around it. The dance was to thank God for the abundance, the opportunity to be together and life in general. We were about a hundred people. That atmosphere caused by faith, reverence, focus and intent was very rich. It was a very strong ritual, the excitement was intense, the presence of aborigenes and slaves disembodied brought back the feelings of the hearts that nothing can destroy. These were the sentiments of centuries and centuries present in Brasil' s history. A piece of our true history, no thesis, no theoretical views or intellectuals interpretations. Prevailed there only the feelings of who lived on his own experience the pains, the joys and achievements. The experience pure, wordless.
Insofar as the singing and dancing followed one after another and the Kaiapós beat the ground with their feet rhythmically, it seems like it was sprouting from the ground a living history ever told in a book by any historian. Only written by pain, emotion, experience of all those peoples and their past generations. It was the noise of feet setting a nice rhythm and the emotion rising and intensifying without stop until the atmosphere to be so full of live and emotion.
Then |I begun to think of our human mistakes. How many plunder! how many deaths! some groups violently attack some weaker with intent to steal the wealth, plunder, enslave. After decimating populations, villages and traditions the invader group boasts of his achievements. They think have destroyed the "primitives" and useless customs. and implemed once their belief, their culture, their world view. When least expected, any where, any time, the story of an ethnic group can break de ground with an unexpected force, unrestrained and very incisive, warning us not to fall into the folly of trying to destroy what is sublime and divine. That divine can temporaly hide into hurted hearts that learned to protect their more dear secrets. But being divine retains its freshness, strenght and wealth which prove that in fact, were not destroyed.
*1-bonfire dances of june, pagodes, sambas, reisados, jongos: popular rhythms of Brasil
*2-orixás:deities brought by africans slaves
domingo, 18 de dezembro de 2011
História viva
Nosso meio cultural, embora tenha fortes marcas de miscigenação, não nos dá plenas oportunidades de entrarmos em contato com instituições ou costumes indígenas ou africanos. Sabe-se que essas instituições fazem parte do tecido social do Brasil, mas nem sempre desabrocham em
práticas sociais respeitadas. Mais facilmente ocupam o nicho do folguedo ou das formas descompromissadas, e às vezes sendo as mais amadas, são motivo de vergonha e feitas às escondidas na porta dos fundos, pois a entrada social é reservada a algo mais prestigiado socialmente.
Temos um dia nacional do índio festivo e colorido, quando as ruas ficam cheias de crianças de rosto pintado e penacho de cartolina, mas não conhecemos muito bem os dramas que envolvem a
demarcação das terras indígenas. E vai por aí afora. A riqueza pujante de nossas tradições pinga em fragmentos na ficção escrita e falada, nas festas escolares, nas comemorações cívicas. Não estão de todo esquecidas, posto que ainda existem grupos de quadrilhas, pagode, samba, reisados, jongos , lundus etc. Porém sobrevivem amealhando recursos e são considerados manifestações culturais de segunda categoria.
Em 13 de maio de 1888 a princesa Isabel assinou a lei áurea. Segundo a versão oficial da história do Brasil esta lei "libertou" os escravos. "Libertou" não é bem a palavra, pois liberdade implica numa série de quesitos que nem sequer foram cogitados para os escravos: onde iriam morar? trabalhar? o que comeriam?estudariam? Nenhuma destas medidas fez parte do "projeto de libertação". Os escravos
foram da senzala para a favela. Mesmo com todas estas ressalvas a data de 13 de maio ficou como um marco comemorativo entendido como uma mudança na condição de escravo.Ficou sendo uma data cívica.
A Umbanda, uma das religiões que fazem culto dos Orixás, tomou a data acima para fazer um ritual de vivência e reflexão sobre a escravidão propriamente dita e sobre todas as formas de ignorância e poder que nós seres humanos, exercemos uns sobre os outros. É um ritual bem abrangente, na verdade.
O tema escravidão suscita um conjunto enorme de questões que merecem reflexão: O respeito à vida, a experiência do encarne, amor e ódio, vingança e perdão, as diversas formas de exclusão. É além disso, um momento de resgate da nossa memória cultural.
O ritual consiste no preparo e degustação da feijoada. A presença da feijoada justifica-se porque ela era nada mais nada menos que a refeição básica e substancial dos escravos no Brasil colonial. Normalmente a feijoada é preparada para muitas pessoas. Enche-se uma grande panela de feijão onde também serão cozidos o paio, o toucinho, a carne seca e outros miúdos. Este prato não é assim por acaso. Sua feição é estreitamente ligada a maneira como surgiu. A maior parte dos animais abatidos para alimentação permanecia na cozinha da casa grande. Para a senzala eram enviados os pedaços que não interessavam aos senhores. Eis aí curta e breve a história da feijoada.
Neste ritual prepara-se uma grande quantidade de feijoada para ser compartilhada pela
comunidade. O comer ritualístico diferencia-se do comer apenas para saciar a fome. A atitude ritualística requer considerável grau de atenção e intenção. Não é uma questão de alimentar o corpo, mas o ser
integral. A atitude devocional já começa pela maneira de arrumar a mesa e servir a comida. Forra-se uma extensa toalha de renda no chão,sobre esteiras em frente ao gongá (altar). Sobre esta toalha deposita-se as grandes panelas de feijão, de arroz, a couve, a laranja, os pratos. Algumas pessoas sentam-se ao longo da esteira e vão arrumando as refeições. Outras ficam na distribuição. Muitos médiuns ficam sentados em banquinhos incorporando as entidades pretos velhos ( entidades de Umbanda, que segundo nossa crença, trazem a sabedoria dos escravos desencarnados). Depois todos oramos em agradecimento e comemos com as mãos para reafirmar a origem do ritual.
Num destes rituais cuja finalidade é curar o mais possível nossa identidade ferida, descaracterizada e marginalizada vivi um momento ímpar em emoção, surpresa e encantamento. Se já é um ritual bonito e profundo neste dia ficou mais bonito ainda porque um grupo de índios Kaiapós participou.
Depois que a mesa foi arriada eles dançaram e cantaram em volta dela. A dança era para agradecer a Deus a abundância, a oportunidade de estarmos juntos e a vida de um modo geral.
Éramos mais ou menos cem pessoas. Aquele clima provocado pela fé e pela reverência foi muito rico. Foi um ritual fortíssimo, a emoção estava intensa, a presença dos índios e dos escravos (em espírito) trouxe de volta os sentimentos genuínos e indestrutíveis. Eram séculos e séculos de vivência nesta terra.
Um pedaço da nossa história, sem teses, sem pontos de vista teóricos ou interpretações . Não era o caso de uma intermediação intelectual. Ali estava o sentimento de quem viveu na própria pele dor, desespero, medo, perda, tristeza, conquista, alegria e mais uma infinidade de experiências. As vivências puras, sem palavras. Na medida que os cânticos e as danças sucediam-se e os índios batiam com os pés ritmadamente, parecia que ia brotando do chão uma história viva jamais contada por nenhum livro, por nenhum historiador. Era a vida em estado puro de todas aquelas pessoas ali e suas gerações passadas.Era o barulho dos pés marcando um belo ritmo e a emoção subindo e se intensificando sem parar até a atmosfera ficar plena de tanta vida e emoção. História que só a voz da alma pode contar.
Daí comecei a pensar em como é fácil o equívoco para a frágil condição humana. Estamos tão perto do erro que a queda pode ser brutal quando se é invigilante. O fenômeno do genocídio me deixava assim conversando com meus botões. Como certos grupos fortes social e economicamente atiram-se sobre etnias desprotegidas para roubar e escravizar! Quanta violência, depredação e morte! Depois de dizimar populações e aldeias o grupo invasor sai se gabando de suas conquistas achando que destruíram as incômodas pessoas e os inúteis costumes "primitivos" e implantaram de vez seu credo, sua cultura, sua visão de mundo. Ledo engano. Quando menos se espera, em qualquer lugar, qualquer momento, a história de uma etnia pode arrebentar do chão com uma força inesperada, incontida e muito incisiva, nos advertindo para não cair na tolice de tentar destruir o que é sublime e divino. Esse divino pode se esconder temporariamente nos corações magoados que aprenderam a proteger seus segredos mais caros. Mas sendo divino conserva seu frescor e sua força que podem vir á tona com uma beleza e uma riqueza tão grandes que provam que na verdade, sobreviveram intactos. E os pretensos conquistadores mal conseguem disfarçar as mãos sujas de sangue.
Foto: Jonathan Hardeman
www.flickr.com/photos/jonhardeman
www.myspace.com/jonhardeman
práticas sociais respeitadas. Mais facilmente ocupam o nicho do folguedo ou das formas descompromissadas, e às vezes sendo as mais amadas, são motivo de vergonha e feitas às escondidas na porta dos fundos, pois a entrada social é reservada a algo mais prestigiado socialmente.
Temos um dia nacional do índio festivo e colorido, quando as ruas ficam cheias de crianças de rosto pintado e penacho de cartolina, mas não conhecemos muito bem os dramas que envolvem a
demarcação das terras indígenas. E vai por aí afora. A riqueza pujante de nossas tradições pinga em fragmentos na ficção escrita e falada, nas festas escolares, nas comemorações cívicas. Não estão de todo esquecidas, posto que ainda existem grupos de quadrilhas, pagode, samba, reisados, jongos , lundus etc. Porém sobrevivem amealhando recursos e são considerados manifestações culturais de segunda categoria.
Em 13 de maio de 1888 a princesa Isabel assinou a lei áurea. Segundo a versão oficial da história do Brasil esta lei "libertou" os escravos. "Libertou" não é bem a palavra, pois liberdade implica numa série de quesitos que nem sequer foram cogitados para os escravos: onde iriam morar? trabalhar? o que comeriam?estudariam? Nenhuma destas medidas fez parte do "projeto de libertação". Os escravos
foram da senzala para a favela. Mesmo com todas estas ressalvas a data de 13 de maio ficou como um marco comemorativo entendido como uma mudança na condição de escravo.Ficou sendo uma data cívica.
A Umbanda, uma das religiões que fazem culto dos Orixás, tomou a data acima para fazer um ritual de vivência e reflexão sobre a escravidão propriamente dita e sobre todas as formas de ignorância e poder que nós seres humanos, exercemos uns sobre os outros. É um ritual bem abrangente, na verdade.
O tema escravidão suscita um conjunto enorme de questões que merecem reflexão: O respeito à vida, a experiência do encarne, amor e ódio, vingança e perdão, as diversas formas de exclusão. É além disso, um momento de resgate da nossa memória cultural.
O ritual consiste no preparo e degustação da feijoada. A presença da feijoada justifica-se porque ela era nada mais nada menos que a refeição básica e substancial dos escravos no Brasil colonial. Normalmente a feijoada é preparada para muitas pessoas. Enche-se uma grande panela de feijão onde também serão cozidos o paio, o toucinho, a carne seca e outros miúdos. Este prato não é assim por acaso. Sua feição é estreitamente ligada a maneira como surgiu. A maior parte dos animais abatidos para alimentação permanecia na cozinha da casa grande. Para a senzala eram enviados os pedaços que não interessavam aos senhores. Eis aí curta e breve a história da feijoada.
Neste ritual prepara-se uma grande quantidade de feijoada para ser compartilhada pela
comunidade. O comer ritualístico diferencia-se do comer apenas para saciar a fome. A atitude ritualística requer considerável grau de atenção e intenção. Não é uma questão de alimentar o corpo, mas o ser
integral. A atitude devocional já começa pela maneira de arrumar a mesa e servir a comida. Forra-se uma extensa toalha de renda no chão,sobre esteiras em frente ao gongá (altar). Sobre esta toalha deposita-se as grandes panelas de feijão, de arroz, a couve, a laranja, os pratos. Algumas pessoas sentam-se ao longo da esteira e vão arrumando as refeições. Outras ficam na distribuição. Muitos médiuns ficam sentados em banquinhos incorporando as entidades pretos velhos ( entidades de Umbanda, que segundo nossa crença, trazem a sabedoria dos escravos desencarnados). Depois todos oramos em agradecimento e comemos com as mãos para reafirmar a origem do ritual.
Num destes rituais cuja finalidade é curar o mais possível nossa identidade ferida, descaracterizada e marginalizada vivi um momento ímpar em emoção, surpresa e encantamento. Se já é um ritual bonito e profundo neste dia ficou mais bonito ainda porque um grupo de índios Kaiapós participou.
Depois que a mesa foi arriada eles dançaram e cantaram em volta dela. A dança era para agradecer a Deus a abundância, a oportunidade de estarmos juntos e a vida de um modo geral.
Éramos mais ou menos cem pessoas. Aquele clima provocado pela fé e pela reverência foi muito rico. Foi um ritual fortíssimo, a emoção estava intensa, a presença dos índios e dos escravos (em espírito) trouxe de volta os sentimentos genuínos e indestrutíveis. Eram séculos e séculos de vivência nesta terra.
Um pedaço da nossa história, sem teses, sem pontos de vista teóricos ou interpretações . Não era o caso de uma intermediação intelectual. Ali estava o sentimento de quem viveu na própria pele dor, desespero, medo, perda, tristeza, conquista, alegria e mais uma infinidade de experiências. As vivências puras, sem palavras. Na medida que os cânticos e as danças sucediam-se e os índios batiam com os pés ritmadamente, parecia que ia brotando do chão uma história viva jamais contada por nenhum livro, por nenhum historiador. Era a vida em estado puro de todas aquelas pessoas ali e suas gerações passadas.Era o barulho dos pés marcando um belo ritmo e a emoção subindo e se intensificando sem parar até a atmosfera ficar plena de tanta vida e emoção. História que só a voz da alma pode contar.
Daí comecei a pensar em como é fácil o equívoco para a frágil condição humana. Estamos tão perto do erro que a queda pode ser brutal quando se é invigilante. O fenômeno do genocídio me deixava assim conversando com meus botões. Como certos grupos fortes social e economicamente atiram-se sobre etnias desprotegidas para roubar e escravizar! Quanta violência, depredação e morte! Depois de dizimar populações e aldeias o grupo invasor sai se gabando de suas conquistas achando que destruíram as incômodas pessoas e os inúteis costumes "primitivos" e implantaram de vez seu credo, sua cultura, sua visão de mundo. Ledo engano. Quando menos se espera, em qualquer lugar, qualquer momento, a história de uma etnia pode arrebentar do chão com uma força inesperada, incontida e muito incisiva, nos advertindo para não cair na tolice de tentar destruir o que é sublime e divino. Esse divino pode se esconder temporariamente nos corações magoados que aprenderam a proteger seus segredos mais caros. Mas sendo divino conserva seu frescor e sua força que podem vir á tona com uma beleza e uma riqueza tão grandes que provam que na verdade, sobreviveram intactos. E os pretensos conquistadores mal conseguem disfarçar as mãos sujas de sangue.
Foto: Jonathan Hardeman
www.flickr.com/photos/jonhardeman
www.myspace.com/jonhardeman
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Eat, pray, love adventures in search of faith
It is a light and loose book that we read as enjoy an adventure film. There is no dense as man turning into insects or impacting insights in the maid's room. In it, a wise lightness as fresh fruits on table.
the adventuress is an american woman on thirties going through a crisis in her marriage when she discovers it's not quite what she wanted from life. Now what? How to comunicate this to her husband with whom she had plans to buy a house and have children? Of course, the boy was not happy with this sudden change of direction.
Aware that she could not leave the marriage without causing damage to the heart of her husband, she felt as if under a quarry about to collapse, or rather as if knocking on a stone quarry down over someone.

One night, deeply embittered, kneeling in tears on the bathroom floor, suddenly she realized that she needed to deliver all that weight to someone or something stronger than her.Something she had heard about but until now only existing in a state of pure possibility. God. This all power and goodness that takes care of us. God is simple and concret when we open our hearts.
That's what appealed to me in this book. A flight to God. At first it was difficult for our adventurous, with whole this story of guilt and depression, but such was its ability to deliver that soared and glided like a seagull on the sea.
She is very frisky and extended its search for social circles and cultures radically different from their native culture. She followed her intuition and made the travels a kind of initiations where she looks for answers to her questions.
Modern thought is predominantly materialistic and do not have much good will toward the faith. It's no wonder. Religions, with its profusion of cultural traits and intentional scams are not exactly a heaven of sanity. Priestly privileges, bloody wars, hunger for power is a short summary of how crazy religions produced. However, mixing God with this confusion is a foolish answer to consistent questions. God simply is. The confusion we do.
Eat, pray, love could be also called the story of how evolution and modernity are not in contradiction with faith. Abode in an Ashram, meditation techniques, friendship with a polynesian shaman are some of the themes of the adventures. Experiences with soul and confidence by someone who found a spiritual feast and drank and ate getting a deep and lasting healing.
No, it's not so hard.Also we don't need to travel to Italy or India or Polynesia. Divinity is always right here where we are, only we need "have eyes to see and ears to hear". the journey of faith requires some work, but it's not unattainable. Within us all vehicles, stations and ports.
Eat, Pray, Love
by Elizabeth Gilbert
terça-feira, 15 de novembro de 2011
Comer, rezar, amar aventuras em busca da fé
É um livro leve e solto que a gente lê como quem curte um filme de aventuras. Não é nada denso como homens se transformando em insetos nem insights impactantes no quarto de empregada. Nele, a sabedoria e a leveza se oferecem como frutas frescas sobre a mesa.
A aventureira é uma americana de trinta e poucos anos que passa por uma crise no seu casamento quando descobre que não é bem isso que queria da vida. E agora? Como comunicar isso ao marido com quem tinha feito planos de adquirir patrimônio e ter filhos? Evidentemente, o rapaz não ficou nada feliz com essa repentina mudança de rumos.
Ciente de que não poderia sair do casamento sem causar um estrago no coração do marido, sentia-se como se estivesse embaixo de uma pedreira prestes a desmoronar, ou melhor, como se estivesse derrubando um pedreira sobre alguém.
Certa noite, profundamente amargurada, ajoelhada em prantos no chão do banheiro, compreendeu repentinamente que precisava entregar todo esse peso a alguém ou algo mais forte do que ela.Algo do qual ouvira falar mas que até então só existia no puro estado de possibilidade: Deus.Esse ser todo poder e bondade que toma conta de nós. Deus é simples e concreto quando abrimos o coração.
Foi o que me seduziu neste livro. Um vôo para Deus. No início, foi difícil para nossa aventureira, com toda aquela história de culpa e depressão, mas foi tamanha a sua capacidade de entrega que alçou vôo e planou como uma gaivota sobre o mar.
Ela é dotada de um forte impulso para a mudança e estendeu sua busca para círculos sociais e culturas radicalmente diferentes de sua cultura natal. Seguiu a intuição e fez das viagens espécie de iniciações onde foi em busca de respostas para suas questões.
O pensamento moderno é predominantemente materialista e não tem muita boa vontade para com a fé. Não é à toa. As religiões, com sua profusão de traços culturais e engodos propositais, não são propriamente o paraíso da sensatez. Privilégios sacerdotais, guerras sangrentas, sede de poder são um pequeno resumo de quanta loucura as religiões produziram.São despotismos, arbitrariedades e mentiras que suscitam questionamentos muito naturais. Sou a primeira a tirar o chapéu para a coerência desses questionamentos. No entanto, misturar Deus com essa confusão é contaminar uma boa questão com uma resposta tola. Deus simplesmente é. As confusões, somos nós que fazemos.
Comer, rezar, amar também poderia se chamar a história de como a evolução e a modernidade não estão em contradição com fé.Estadia num Ashram, técnicas de meditação, amizade com um xamã polinésio são alguns dos temas das aventuras. Experiências vividas com alma e confiança por alguém que descobriu um banquete espiritual e bebeu e comeu obtendo uma cura profunda, saudável e duradoura.Não, não é tão difícil assim. Também não é preciso viajar para a Itália, nem India, nem Polinésia. A Divindade está sempre aqui mesmo onde nós estamos.É só querer, "ter olhos de ver e ouvidos de ouvir". A viagem da fé pede um certo fôlego, mas não é inviável. Dentro de nós todos os veículos, portos e estações.
Comer rezar amar
Elizabeth Gilbert
Comer rezar amar
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